#4
- Bruna Ribeiro

- 15 de abr. de 2019
- 1 min de leitura
Atualizado: 21 de mai. de 2019
Querido fogo,
Das coisas ruins que eu já vivi, a pior delas, sem dúvida, foi a escravidão. Tudo cheirava mal, a cozinha estava sempre imunda, exageradamente suja, mesmo limpando do chão ao armário todos os dias. Eu não conhecia o conforto, mas eu ficava feliz quando estava sozinha na rua ou rindo e inventando paródias com uma amiga em um canto do lado de fora de uma quadra vazia. Os refúgios me fizeram respirar melhor. Será que meu coração endureceu? Não sei se me divertia pra aliviar ou porque era bom mesmo, mas eu ria… ria muito… eu precisava rir pra esquecer que nem sempre eu tinha um lugar pra dormir, que eu tinha que limpar a bagunça dos loucos, que eu carregava 35 quilos a mais nas costas por medo e culpa, que o barulho era insuportável, que eu estava condenada a andar devagar porque o chão era de areia movediça. Eu ria a cada minuto que eu estava longe de tudo isso, pra esquecer.
Eu me pergunto, quantas gerações precisam sofrer pelas sombras dos corpos sem alma que já existiram e dos que ainda existem? Escrevo pra você pelo seu poder de destruição. Eu vou destruir isso.
Um grande abraço,
Bruna Ribeiro
P.S. Queime esta carta, queime esta história.




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